O EMPREGO DA TECNOLOGIA

PARA A MEDIAÇÃO DO CONHECIMENTO

 

Prof Miguel Carlos Damasco dos Santos

 

  

RESUMO

 

O mundo contemporâneo tem enfrentado diversas transformações provocadas pelo emprego das novas tecnologias da comunicação, que tem a Internet como o seu maior fenômeno, afetando diretamente nossa relação com o conhecimento numa velocidade sem precedentes. Estamos inundados em informações que necessitam de análise e validação antes de serem processadas para produção e difusão de saberes significativos. Nesse contexto, a educação tecnológica apresenta-se como um devir no rompimento de velhos paradigmas, deixando à nossa disposição máquinas e ambientes considerados verdadeiras extensões humanas em todos os seus sentidos. No presente artigo, abordaremos como o uso apropriado das possibilidades da Internet na educação faz emergir novas formas de mediação e gestão do conhecimento de forma contextualizada. Para tal, tomaremos como ponto de partida o espaço imaterial de fluxos conhecido como ciberespaço e seus reflexos no processo ensino-aprendizagem requeridos para melhor preparar um cidadão crítico, imerso na sociedade da informação. Mapearemos o rizoma do ciberespaço e suas implicações na virtualidade do real, na nova relação espaço-temporal, nas fronteiras do não território e na emergência da nova cultura com seu vitalismo social: a cibercultura. O seu ambiente envolvente e as suas ricas ferramentas podem favorecer tanto nas estratégias de aprendizagem colaborativa, como no apoio à geração das novas competências e habilidades necessárias para substituir aquelas que se tornarão rapidamente ultrapassadas e obsoletas durante a carreira profissional dos cidadãos.

 

 

Palavras-chave: ciberespaço, conhecimento e educação.


 

1. INTRODUÇÃO

 

No decorrer da história da humanidade, os avanços tecnológicos foram responsáveis por alterações nos mais diversos campos de atividades, sempre trazendo consigo mudanças nas atitudes sócio-culturais dos povos. Para melhor compreendermos os impactos das novas tecnologias na cultura contemporânea devemos dirigir nosso olhar para a educação como um processo complexo, inacabado e em evolução permanente.

Hoje, o desenvolvimento informacional e técnico está modificando a sociedade sob diversos ângulos, e a educação não poderia ser uma exceção. Com as novas exigências, as questões sobre mediação do conhecimento e tecnologias apresentam grande potencial para produção, convergência e difusão. Entre as conseqüências do avanço da telemática entendemos que a mudança mais profunda foi o surgimento de uma nova sociedade chamada de “sociedade do conhecimento”. Nessa sociedade, que se forma por influência decisiva dos meios de comunicação, as culturas, os processos educacionais e as competências requeridas passam por uma crise de significados sem precedentes.

As novas tecnologias da comunicação se impõem neste novo século através, principalmente, da rede mundial de computadores, também conhecida como Internet, que possibilita a troca de informações em todos os níveis, sejam elas em forma de textos, gráficos, som ou imagens. Elas transformam nossa relação com o espaço e com o tempo numa velocidade nunca antes experimentada, dando-nos uma nova percepção de mundo, no qual nossos relacionamentos, inclusive com os saberes, convertem-se em espaços de fluxos, criando e desfazendo verdades, competências e habilidades.

A Internet encontra-se em estado inicial de desenvolvimento em todo o mundo. Apesar da difusão do seu emprego estar sendo feita em expressiva velocidade, milhões de pessoas ainda não sabem do que se trata. Aqueles que já estão conectados, talvez nem conheçam todas as suas possibilidades. A personalização, a interatividade, a simultaneidade, o armazenamento e a recuperação de informações são algumas das características da grande rede que podem ser mais exploradas no ambiente educacional.

O uso da Internet vem ocupando espaços variados no processo ensino-aprendizagem, ainda que, na maioria das vezes, de maneira pouco eficiente. Ela é mais um recurso que se apresenta, podendo funcionar como um fórum para discussão de temas específicos, desenvolvendo habilidades de pensamento, suas estruturas lógicas, partilha de conhecimentos e capacidade de comunicação, encurtando as barreiras físicas e culturais. Porém, antes de tudo, é preciso identificar na Internet como ela pode realmente oferecer contribuições à mediação do conhecimento de forma mais significativa.

Assim, nessa nova ordem, surge o que chamamos de “ciberespaço”: um espaço imaterial das novas relações sociais e educativas, num ambiente desterritorializado, de bases cooperativas, de trocas interativas, de acessos instantâneos e de uma multiplicidade infinita de saberes. A Internet apresenta para seus usuários, através de interfaces dinâmicas, uma janela de entrada no novo “espaço”, oferecendo outras oportunidades para aquisição e mediação do conhecimento, uma nova lógica no fluxo dos saberes em expansão geométrica. O ciberespaço não possui trânsito de tecidos humanos ou coisas, mas um espaço eletrônico onde trafegam bits e bytes. A sua definição é complexa: “O cyberespaço seria assim um espaço mágico, uma rede de inteligências coletivas. (...) é assim uma entidade real, parte vital da cybercultura planetária que está crescendo sob os nossos olhos” (LEMOS, 1996, s. p.).

Com a World Wide Web (WWW) outras possibilidades de estudo começaram a se abrir, além das linhas tradicionais da comunicação mediada por computador (CMC). O seu diferencial mais significativo em relação às mídias tradicionais talvez esteja centrado na possibilidade da rede produzir experiências interativas. Palácios comparou a interatividade telemática com os meios tradicionais:

 (...) a telemática está, pela primeira vez, fazendo a junção entre comunicação massiva e interatividade. Há até pouco tempo atrás, a dissociação entre massivo e interativo era clara, no âmbito da comunicação. Uma coisa ou outra. O telefone é interativo, mas não massivo, na medida em que é apenas uma extensão tecnológica de um diálogo entre dois interlocutores; a televisão, o rádio, as mídias impressas etc., são massivas, porém não interativas. A comunicação telemática é massiva e interativa. (PALÁCIOS, 1999. s. p.)

O filósofo Lévy (1993, p. 196) considera a Internet como um meio para consolidar uma “tecnodemocracia” - uma nova formação política na qual os meios técnicos viabilizam o desenvolvimento de comunidades inteligentes, capazes de se autogerir como uma inteligência coletiva, promovendo interação entre as pessoas e podendo reorganizar as massas de informação disponíveis, por meio de conexões transversais e simultâneas. Essa inteligência coletiva está se contrapondo à cultura educacional e social verticalizada existente até então.

Neste artigo, esperamos indicar algumas características das novas apreensões das dimensões temporal e espacial, que de forma acelerada traz mudanças em nossos hábitos e como nos relacionamos com elas. Não pretendemos dar conta dessa convergência das relações educacionais e sociotécnicas, mas apenas chamar a atenção para algo que é irreversível: a emergência de uma sociedade em rede, com presentificação e imediatez. Cabe, agora, às diversas parcelas da sociedade do conhecimento determinar como deverão ocorrer as mudanças e como efetivamente participar delas, promovendo uma educação interativa e colaborativa que passamos a chamar de cibereducação.

 

2. CONTORNOS DO CIBERESPAÇO

 

O progresso crescente das tecnologias da informática e o aumento geométrico do número de seus usuários apresentam um novo posicionamento tanto cultural quanto educacional. As nossas relações com o saber estão adquirindo um novo ordenamento e migrando para o chamado “infoterritório”, conhecido também como ciberespaço.

O ciberespaço pode ser explicado como interconexões entre milhões de computadores e entre diferentes tipos de redes de computadores, sendo a Internet o seu estado mais avançado. É um espaço eletrônico, acessado através do computador, onde se trabalha com dados, informações e memória compartilhada, agilizando a comunicação interativa entre indivíduos e grupos, independentemente do tempo e do espaço.

Esse novo meio tem a vocação de colocar em sinergia e interfacear todos os dispositivos de criação de informação, de gravação, de comunicação e de simulação. A perspectiva da digitalização geral das informações provavelmente tornará o ciberespaço o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do próximo século. (LÉVY, 1999. p. 93)

O termo foi cunhado por William Gibson que o definiu como um espaço não físico ou territorial. Para o autor, o ciberespaço é a “matrix”, uma região abstrata invisível que permite e estimula a circulação de informações na forma de imagens, sons, textos etc. Este espaço virtual, com a globalização e a conectividade já constitui um espaço social de trocas simbólicas e partilhas de conhecimento entre pessoas dos mais diversos locais do planeta.

Uma alucinação consensual, vivida diariamente por bilhões de operadores legítimos, em todas as nações, por crianças a quem estão ensinando conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas que abrangem o universo não espaço da mente; nebulosas e constelações infindáveis de dados. (GIBSON, 1991, p. 57)

Encontramos em publicações outras noções usuais do termo, entre elas a que o define como o conjunto formado pelas novas mídias e suas convergências. No entanto, como fenômeno da cultura contemporânea, ele vai muito além da simples utilização das ferramentas de comunicação, ao promover o aparecimento de um novo e profícuo espaço sócio-cultural.

De acordo com Lévy (1998, p. 104), o ciberespaço designa o universo das redes digitais como lugar de encontros e de aventuras, terreno de conflitos mundiais, nova fronteira econômica e cultural. Porém, atualmente, ainda existe um pequeno grupo de pessoas privilegiadas que têm acesso à tecnologia de informação, se considerarmos a dimensão global. Logo, o ciberespaço faz surgir sociedades com exclusão digital, os “info-excluídos” e os “analfabits”. A era tecnológica recria uma nova divisão social, uma redistribuição de saberes e poderes, separados de acordo com a sua participação na rede telemática.

 

2.1. O advento do mundo virtual

 

Castells (1999, p. 397 e 436) afirma que, a partir do rompimento dos padrões espaciais em redes interativas, o “espaço de fluxos” passou a substituir o “espaço de lugares”. O novo espaço seria a organização corporal das seqüências de intercâmbio e interações intencionais, repetitivas e programáveis, o suporte das práticas sociais de tempo compartilhado. No ciberespaço, os lugares continuam com a mesma lógica e o mesmo significado, porém, absorvidos pelo contexto da rede. O seu ambiente virtual, entretanto, continua sustentado por estruturas materiais, referentes aos recursos tecnológicos e à organização estratégica que possibilitam as diversas e calorosas interações no ciberespaço.

O espaço de fluxos realiza um processo de desmaterialização das relações sociais e educacionais conectadas em rede. O que antes era concreto e palpável adquire uma dimensão imaterial na forma de impulsos eletrônicos. Hoje, a realidade virtual pode ser experimentada e vivida como se fosse real. Ao terminar a presença no universo virtual, pode-se reentrar no mundo real e duro. De acordo com Sodré (1999, p. 31), “realidade virtual, compreendida como um ‘real’ ancorado no plano da pura representação, altera radicalmente a nossa percepção e faz evanescer-se a realidade tradicional.”

Segundo Pierre Lévy, o virtual é uma nova modalidade de ser, cuja compreensão é facilitada se considerarmos o processo que leva a ele: a virtualização. Virtualizar constitui-se em “estender” um determinado processo além dos seus sujeitos, tornando relativas suas questões no tempo e no espaço. “O real seria da ordem do ‘tenho’, enquanto o virtual seria a ordem do ‘terás’, ou da ilusão, o que permite geralmente o uso de uma ironia fácil para evocar as diversas formas de virtualização” (LÉVY, 1996, p. 15).

No espaço cibernético, onde há a multiplicação desenfreada de espaços e sites, tornamo-nos migrantes de um nó ao outro, de uma rede a outra; não mais migrantes de espaços geográficos, mas de espaços virtuais. Virtual não significa irreal, mas que existe em potência, e não em ato. (PALÁCIOS, 1999, s. p.). A virtualidade refere-se mais à possibilidade de ser, de tornar-se uma força no mundo real. Concebendo o virtual como uma dimensão intermediária entre o real e a pura imaginação, podemos entendê-lo da seguinte forma: em um dos seus extremos estaríamos mais próximos à realidade e, no outro, à abstração.

As características do “lugar virtual” residem no tempo-real, desterritorialidade, imaterialidade e interatividade. Tais aspectos possibilitam relações sociais simultâneas e acesso imediato a qualquer parte do mundo, inaugurando uma nova percepção do tempo, espaço e de relações sociais. É no anonimato do “lugar virtual” que se pode experimentar solitariamente uma nova sociabilidade, compartilhar de um lugar simbólico e marcado por relações de caráter ideológico, afetivo, sexual ou racial, entre outras.

 

2.2. Territorialidade e espaço/tempo

 

Como vemos, a Internet transformou totalmente os conceitos de território, espaço e tempo. As mudanças estruturais potenciadas pelos suportes tecnológicos, tais como: emissão multiponto, bidirecionalidade, dimensão planetária da comunicação, facilidade de armazenamento e divulgação de informação, têm conduzido a uma reorganização dos fluxos e dos procedimentos comunicacionais. A rede promove a diluição das fronteiras geográficas mas, também, a geração de novas identidades, territórios e práticas sociais. Por um lado, o sujeito está presente num lugar físico; por outro lado, no espaço virtual. Não é a geografia que vai determinar a topologia das relações e sim os interesses comuns.

(...) a era da pós-informação vai remover as barreiras da geografia. A vida digital exigirá cada vez menos que você esteja num determinado lugar em determinada hora, e a transmissão do próprio lugar vai começar a se tornar realidade. (NEGROPONTE, 1995, p 159)

O território, visto como raiz da identidade, só existe através de um sistema de representações que delimita as fronteiras desse território. Povoar esse espaço com símbolos e significações é que lhe dará a sua individualidade e especificidade em relação aos espaços vizinhos. Dessa forma, a existência de territórios na Internet pode ser pensada como espaços ou territórios de fluxos que geram representações partilhadas, nos conduzindo a repensar as fronteiras geográficas e as próprias relações de territorialidade, afetando, também, as sociabilidades com o surgimento de novos espaços e motivos de encontro.

Giddens (1991, p. 29), ao analisar as conseqüências da modernidade, no final do século XX, apresentou um conceito chamado de “desencaixe”. De acordo com o autor, na rede telemática o tempo tem se esvaziado e perdido, cada vez mais, a sua relação com a experiência de vida dos homens em seu cotidiano, num certo espaço concreto circundante, substituído por sua extensão, o espaço virtual, fomentando novas formas de contatos interpessoais. Baseado nestas concepções de tempo e espaço, o “desencaixe” seria o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço.

A velocidade dos media eletrônicos instaura uma nova forma de experienciar o tempo, substituindo a noção de tempo-duração por tempo-velocidade (ELHAJJI, 1999, p. 220) e a instantaneidade das relações sociais. O tempo advindo das novas tecnologias comunicacionais é marcado pela presentificação e pela interatividade on-line, fato constatado nas tecnologias de telepresença em tempo real que alteram nosso sentido cultural de tempo e espaço.

Lemos comparou as funções temporais e espaciais do ambiente das redes eletrônicas como um modo de ilustrar implicações entre aspectos da territorialidade pós-moderna e a suspensão das referências materiais no ciberespaço:

O ciberespaço faz parte do processo de desmaterialização do espaço e de instantaneidade temporal contemporâneos ... Se na modernidade o tempo era uma forma de esculpir o espaço, com a cibercultura contemporânea nós assistimos à um processo onde o tempo-real vai aos poucos exterminando o espaço. (LEMOS, 1996, s. p.)

 

2.3. Essência sociotécnica da cibercultura

 

A sociedade de hoje, baseada na comunicação em redes telemáticas, com alcance global, arranja-se socialmente de forma cultural, relacionando-se por uma estrutura de fluxos de informação. E a Internet representa o papel de um canal para criar e refletir uma nova cultura de relações. Esse modo de relacionamento interativo, difundiu-se a ponto de se acreditar que a humanidade adquiriu uma outra forma de cultura, uma “cultura da virtualidade real” ou “cibercultura”, para outros autores (CASTELLS, 1999, p. 355).

Ela forma-se precisamente da convergência entre o social e o tecnológico, sendo através da inclusão da sociabilidade na técnica que ela adquire seus contornos mais nítidos. A CMC amplia a troca de informações até hoje estabelecida em “um e um” pelo telefone ou em “um e todos” pelos veículos de massa. Implanta uma interação classificada por Lévy (1999, p. 207) em “todos e todos”, combinando a reciprocidade e a partilha de um contexto.

A essência da cibercultura é a universalidade, o que não significa uniformidade nem totalidade, mas sim, interconexão global entre uma multiplicidade de sentidos e contextos colocados à nossa disposição. A comunicação pela grande rede reúne pessoas pela partilha de e objetivos comuns e não por um acidente geográfico. As características da interação social via Internet, exemplificam como as culturas que se desenvolvem no dia-a-dia da vida real se transportam para as redes de computadores.

Como a cultura é mediada e determinada pela comunicação, as próprias culturas, isto é, nossos sistemas de crenças e códigos historicamente produzidos, são transformados de maneira fundamental pelo novo sistema tecnológico e o serão ainda mais com o passar do tempo. (LÉVY, 1999, p. 354)

A cibercultura proporciona uma desterritorialização do saber e pode auxiliar na transformação dos cidadãos em inteligências associadas. O advento dessa nova cultura infocomunicacional provoca uma mudança radical no imaginário humano, transformando a natureza das relações dos homens com a tecnologia e entre si. O imaginário sempre esteve atrelado à tecnologia, sendo que não podemos pensá-la diferenciada da sociedade e isolável, mas sim considerarmos um mundo permeado pela tecnologia, que influencia as formas de sociabilidade.

A convergência das possibilidades técnicas com os aspectos sociais presentes no contexto cultural é inevitável, e como tal, os frutos dessa união resultam em ações que buscam, em última instância, o estabelecimento de um novo tipo de comunidade, promovidas por novos espaços de convivência e novas formas de relacionamento. As comunidades virtuais são conjuntos de pessoas que se agregam socialmente e se interagem através da Internet, com discussões públicas, e que formam teias de relações pessoais cujo local de contato é realizado no ciberespaço.

A cibercultura é fruto deste encontro entre a tecnologia de ponta e o vitalismo social que toma corpo desde o fim do século passado. Mais do que as inovações técnicas, foi o surgimento destas novas formas de sociabilidade, fundadas nas relações quotidianas e no lúdico, que deu origem a esta cultura do virtual. Assim, a efervescência das comunidades eletrônicas deve-se muito mais à pulsão de estar junto, ao prazer da comunicação, do que ao desenvolvimento da tecnologia.

 

3. CONHECIMENTO NA CIBEREDUCAÇÃO

 

No século XXI, a sociedade está caracterizada pela diversificada quantidade de informação em fluxo, pelo seu fácil acesso por parte dos que possuem e dominam os recursos telemáticos e também pela constante e acelerada alteração em todos os níveis da informação. A economia globalizada, por sua vez, exige uma mão-de-obra com uma qualificação qualitativamente diferenciada do passado. Assim, a familiarização com novas tecnologias da informação e a contínua atualização profissional por parte dos trabalhadores serão necessárias, potencializando ainda mais a influência da tecnologia sobre diversos aspectos da atividade humana relacionados à aprendizagem.

O ponto principal aqui é a mudança qualitativa nos processos de aprendizagem. Procura-se menos transferir cursos clássicos para formatos hipermídia interativos ou “abolir a distância” do que estabelecer novos paradigmas de aquisição dos conhecimentos e de constituição dos saberes. A direção mais promissora, que por sinal traduz a perspectiva da inteligência coletiva no domínio educativo, é a da aprendizagem cooperativa. (LÉVY, 1999, p. 170-1)

A educação contemporânea mostra a saturação de paradigmas que não atendem mais ao momento no mundo em que vivemos, diante de novos valores que estão emergindo, de competências a atualizar e à velocidade e quantidade de informação. Como o conhecimento tornou-se dinâmico, precisamos fazer novas conexões de fatos e informações, pois tudo está sistematizado. Os meios de produção mudaram para o paradigma da produção enxuta em lugar da produção em massa. Essa nova visão mostra a necessidade de um novo perfil de cidadão para conviver na sociedade do conhecimento e da tecnologia. Conforme Freire (1979, p. 22), “o homem concreto deve se instrumentar com os recursos da ciência e da tecnologia para melhor lutar pela causa de sua humanização e de sua libertação.”

 

3.1. Da informação ao conhecimento

 

Neste ponto torna-se importante fazermos uma distinção entre informação e conhecimento, entre “saber o quê” e “saber como”. Podemos afirmar que informação seria a matéria-prima ainda não processada, enquanto que o conhecimento seria relativo ao que foi sistematizado pelo nosso pensamento. Segundo Burke (2003, p. 17), “a ênfase passou da aquisição e transmissão do conhecimento para sua construção, produção ou mesmo manufatura.”

Na segunda parte do século XX houve uma crescente especialização nas escolas, principalmente nas de nível superior, fazendo com que os conhecimentos fossem menos amplos que no passado, mas com uma maior profundidade. Hoje, deve haver uma menor preocupação com a acumulação do conhecimento, mas sim com sua construção a partir de informações que devem ser pesquisadas em fontes sólidas, confrontadas com contextos significativos através de reflexões críticas. Para “saber como” temos que “saber onde” antes de “saber o quê”.

Com o passar dos tempos, a emergência de novas técnicas e formas de comunicação, desde a oralidade até as novas tecnologias informáticas contemporâneas, verificamos que as habilidades humanas se modificaram e se expandiram de forma extraordinária. Nos primórdios da civilização humana, na fase da cultura oral, o conhecimento era guardado na memória das pessoas, sendo os mais velhos considerados verdadeiras bibliotecas vivas. A base cultural estava fundada no interior dos indivíduos, que dependiam do contexto para a transmissão dos saberes conhecidos. Tradições, costumes e ritos ajudavam a preservar e transmitir conhecimentos para as demais gerações.

A partir do surgimento da escrita, começamos a armazenar nossos conceitos e informações sobre o que nos cerca em memória artificial. Para a transmissão do saber não era mais preciso estar no contexto, pois poderia ser escoado no tempo e no espaço. Com o advento da impressão, os livros, as enciclopédias e as bibliotecas começam a armazenar o saber em dispositivos que consideramos como as extensões da memória humana, e os registros se tornaram estocáveis, disponíveis e consultáveis.

Hoje, a velocidade com que circulam e são produzidas as informações, os conhecimentos passam a ser constantemente revistos, modificados, sistematizados ou postos de lado por terem sido ultrapassados. O avanço das técnicas de comunicação, ampliou notavelmente o alcance do estoque de conhecimentos compartilháveis. Para tal, a maior biblioteca que conhecemos é a Internet, uma biblioteca universal não totalizável, pronta a ser explorada por todos que buscam informações significativas e contextualmente desafiadoras.

Na época dos descobrimentos, as maiores cidades do mundo passaram por momentos de grande euforia na proliferação de informações e até de conhecimentos. Durante as grandes navegações, os encontros nas cidades deixavam rastros de informações que passavam por uma sistematização crescente, pois à medida que a informação circulava do campo ou dos mares para a cidade, grande quantidade de diferentes indivíduos acrescentavam sua contribuição, o que fazia do processamento do conhecimento à época, uma atividade coletiva e crescente.

Tendo o vasto mundo como um mapa, estas cidades pareciam “nós” bifurcados que formavam uma grande malha a orientar os navegantes e reverberar as informações de forma rizomática. De certa forma, parece que hoje retornamos ao ponto inicial, só que em velocidade acelerada, pois as informações encontram-se na grande rede, unidas por “nós” com pulsos eletrônicos, acessíveis ao clicar do mouse, sem fronteiras e acompanhando o crescimento geométrico do volume das informações.

 

3.2. Cibereducação na sociedade do conhecimento

 

Na sociedade do conhecimento ou da informação, a disseminação de novos paradigmas científicos, aliada à presença de uma economia globalizada, assim como o crescente avanço das tecnologias digitais exigem respostas coerentes de todo segmento educacional. Percebemos que o ato pedagógico precisa ser analisado e revisto de forma estrutural em suas concepções epistemológicas, na reformulação dos currículos e principalmente nas abordagens didáticas.

Frente a esta nova realidade, a educação deve refletir sobre a importância do seu papel e propor uma nova base estrutural, de forma a vir ao encontro não só das exigências para a inserção dos aprendentes no mercado mas, também, de como criar solução para a demanda mais significativa na educação contemporânea, que é a necessidade de promover na vida de cidadãos a capacidade de: aprender continuamente de forma crítica e autônoma, solucionar problemas em contextos imprevistos e questionar o próprio ambiente orgânico de sua sociedade.

A sociedade da informação exige novas formas de ensinar, aprender e produzir conhecimento de forma colaborativa. Nela, o conhecimento passa a ser o recurso educacional, econômico, e sócio-cultural mais determinante. Assmann (1998, p. 19) explica:

Com a expressão sociedade aprendente pretende-se inculcar que a sociedade inteira deve entrar em estado de aprendizagem e transformar-se numa imensa rede de ecologias cognitivas. Supera-se a era de produção dos bens materiais e estas mudanças paradigmáticas ocorrem na sociedade como um todo, inclusive e principalmente nas instituições de ensino... (ASSMANN, 1998, p. 19)

A Internet, aliada a outras possibilidades midiáticas digitais, assim como a ampliação da produção de conhecimentos, permite o acesso a bancos de informação que se proliferam geometricamente no ciberespaço. Nesse contexto, professores e alunos, coletivamente, devem ser parceiros na aprendizagem, na investigação e na pesquisa ao grande acervo existente, num esforço conjunto e cooperativo para elaborar conhecimentos e utilizá-los inteligentemente. Porém, apesar da crescente produção científica na área de tecnologia educacional, revelando as diversas possibilidades pedagógicas para o uso dessas novas tecnologias, o que se observa na prática docente é que esses espaços são raramente usados em atividades didáticas.

As concepções de aprendizagem e prática pedagógica, relacionadas à utilização desses novos espaços educacionais, parecem confirmar a realidade. O que predomina ainda é uma pedagogia tradicional, baseada na transmissão do conhecimento e uma aprendizagem repetitiva. Essas abordagens pedagógicas tradicionais não são compatíveis com a interatividade, hipertextualidade e conectividade características das novas dinâmicas comunicacionais das redes digitais de comunicação.

As tecnologias intelectuais da pós-modernidade – com seus suportes hipertextuais, interconectados, reticulares, interativos e múltiplos – questionam a escola e sua compartimentalização disciplinar, suas grades curriculares tão pouco propícias ao diálogo entre os saberes. O mundo digital no qual cada navegante é um autor de seus próprios percursos, questiona a escola e sua incapacidade de personalização... (RAMAL, 2002, p. 15)

A abordagem pedagógica aprendizagem colaborativa e a distância vem ganhando força cada vez maior, constituindo-se na modalidade educacional apropriada, para atividades coletivas em redes de produção de conhecimento nos meios digitais de comunicação, como a Internet. Como conhecimento é visto como uma construção social, o processo educativo via ciberespaço é favorecido pela participação social num ambiente que propicia a colaboração, a avaliação e o acesso a infinitos saberes universais, não totalizáveis e ricos em possibilidades que propiciam uma visão mais ampla do objeto de estudo, amplificando, assim, a aprendizagem individual de cada membro do grupo.

O aprendizado colaborativo mediado pelas novas tecnologias de comunicação, emerge na sociedade do conhecimento como alternativa para atender as novas demandas advindas das novas formas de relacionamento, percepção da realidade e produção de conhecimento. Os desafios, as ameaças e as possibilidades característicos da contemporaneidade exigirão, cada vez mais, o desenvolvimento de abordagens pedagógicas capazes de mobilizar competências em grupo, e resolver problemas complexos.

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Conforme pudemos perceber, os cidadãos estão sendo diretamente afetados pelas profundas mudanças que estão ocorrendo na sociedade contemporânea devido aos avanços científicos e tecnológicos, com implicações em todos os sentidos e significações. Alguns comportamentos devem ser motivados com o intuito de engajá-los no modelo da sociedade tecnológica e transnacional. Novos projetos educacionais podem ser viabilizados para o uso dos atuais recursos telemáticos de comunicação. Porém, não basta trabalhar com os velhos conteúdos e formas, reproduzindo o modelo tradicional de ensino. É preciso que percebamos os novos papéis e as competências requeridos pela sociedade, participando ativamente desse conjunto de transformações.

Sobre o emprego de antigos métodos pedagógicos em novos meios tecnológicos, Alava fez a seguinte observação:

Se o aparecimento das tecnologias digitais provocou paixão e entusiasmo, as práticas reais estão bem longe do esperado. As tecnologias serviram muitas vezes para renovar os ‘velhos’ métodos pedagógicos... Os novos meios oferecidos aos formadores exigem que a instituição, o formador e o conjunto de atores sociais se apoderem dessas inovações técnicas para evoluir em suas práticas e seus ofícios. (ALAVA, 2002, p. 217)

Hoje, as demandas educacionais não estão sendo atendidas a contento pela relação da prática didático-pedagógica tradicional com as novas formas de comunicação. Os sistemas educacionais devem buscar formas mais dinâmicas de se apropriar das tecnologias emergentes, de modo a proporcionar ambientes e metodologias que favoreçam novos processos de ensino-aprendizagem colaborativos, otimizando os novos espaços do conhecimento. Todos no sistema escolar devem estar preparados para dominar os meios técnicos e incorporá-los a uma prática pedagógica transformadora, cujo principal objetivo é formar um cidadão autônomo e participativo, com capacidade crítica e criadora diante dos desafios que se apresentam a cada dia de forma mais dinâmica e veloz.

Pelo exposto, Moran afirma que a escola tem que sair da inércia e mudar:

Na educação, porém, sempre colocamos dificuldades para a mudança, sempre achamos justificativas para a inércia ou vamos mudando mais os equipamentos do que os procedimentos. A educação de milhões de pessoas não pode ser mantida na prisão, na asfixia e na monotonia em que se encontra. (MORAN, 2004, s. p.)

Confirmando essa necessidade de mudança, observamos que a telemática vem moldando o perfil do novo profissional, sua inserção no mercado de trabalho e o exercício completo da cidadania. Buscando de imediato atender tais necessidades, a utilização apropriada do ciberespaço na educação, mediando a produção do conhecimento, pode sintonizar o aprendizado com o caminho requerido pela infosociedade atual. O destacado avanço da educação nesse milênio, onde as fronteiras culturais, políticas e, principalmente econômicas estão desaparecendo, seria realizar nos seus domínios a convergência dos meios tecnológicos com os processos pedagógicos, não apenas para combinar suas funções técnica e educativa mas, sim, ampliar sua função social na sociedade do conhecimento.

Como vimos anteriormente, o ciberespaço ajuda a aprofundar e enriquecer, na forma de inteligência coletiva, as possibilidades de trocas cognitivas que resultam em esquemas conceituais mais amplos e mais próximos do real. Possibilita, também, a democratização e a rapidez de acesso à informação. Devemos, então, aproveitar tais características e utilizar ferramentas de aprendizagem colaborativa, via Internet, tais como chat, listas de discussão, e-mail, videoconferência e ferramentas de groupware para desenvolver investigações cooperativas, com outros parceiros e em outros contextos, e discutir as ações, as conclusões e os resultados gerados, a partir de grupos de interesse, sem preocupação geográfica.

De acordo com Ramal, a ação interativa no o ambiente do ciberespaço presta-se ao compartilhamento de inteligências coletivas:

O mega design hipertextual reconfigura todo o espaço, pois se trata agora de um ciberespaço, que se constitui como o hipertexto mundial, interativo e receptivo a todas as vozes conectadas que desejam escrever uma parte desse contexto produzido pela inteligência coletiva. (RAMAL, 2002, p83)

A aprendizagem colaborativa a distância, apoiada pelos novos recursos tecnológicos informacionais, desponta com uma das principais tendências didático-pedagógicas adequadas para a complexa realidade educacional contemporânea. E diversas são as possibilidades para uma aprendizagem em ambientes cooperativos na Internet que as instituições de ensino podem incorporar em sua prática. Como as futuras gerações precisarão cada vez mais de uma educação continuada e autônoma, devemos utilizar as novas tecnologias de comunicação de maneira interativa e cooperativa visando uma sociedade mais preparada, cidadã e humana.

No que diz respeito ao papel humanista da educação, Pereira escreveu o seguinte:

Cada vez mais o papel da educação está centrado em propiciar um espaço de desenvolvimento de novas habilidades cognitivas e sociais dos homens, para que seja possível um saldo qualitativo e o atingimento de um novo patamar no mundo globalizado, no qual decodificar e interpretar informações num processo efetivo de comunicação dependem do domínio cultural de diversas áreas do saber. (PEREIRA, 2000. p. 235)

No entanto, o domínio da Internet por um grupo de homens brancos e bem educados impede que a experiência seja considerada um sucesso em termos de construção do conhecimento e de democracia eletrônica. Esse pensamento crítico parte do reconhecimento de que o acesso às tecnologias de informação é uma extensão natural dos direitos sociais de cidadania, mas isso não quer dizer que mais acesso à informação será diretamente proporcional a uma maior igualdade de oportunidades e liberdade individual para todos (SANTOS, 2002, p. 99).

Por fim, torna-se necessário que sejamos desafiados a compartilhar da inteligência coletiva e de sua inicial complexidade, para que saibamos como desenvolver nossas competências sempre que requeridas. Devemos dinamizar os novos espaços de aprendizagem e de mediação do conhecimento no contexto da atualidade. Precisamos, também, considerar as emergentes dimensões didáticas e pedagógicas, incorporar os novos meios tecnológicos de comunicação e articular novos processos educativos de forma participativa.

Acreditamos que esse tema deve ser assunto de reflexão de todos os educadores do novo milênio, uma vez que a sociedade tecnológica é uma realidade que já se impõe muito além das velhas formas de produção do conhecimento tradicionais, perpetuantes e estáticas.

 

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALAVA, Séraphin (org.). Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002.

 

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BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutemberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

 

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Fim